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18.03.2020

Não seja ultracrepidário.

Na Grécia do século IV AC um pintor chamado Apeles usava um artifício muito interessante para melhorar suas obras. Quando seus quadros estavam prontos, ele os expunha em frente ao seu ateliê para que os passantes pudessem observá-los e criticá-los. De posse dos comentários, o pintor podia melhorar ou até consertar algum erro que pudesse haver.

Certo dia, Apeles observou um homem parado em frente a uma de suas obras e iniciou uma conversa:

– Gostou do quadro?

– Sim é impressionante! Gostei muito.

– Obrigado, eu o pintei.

– Que honra conhecê-lo! Sou um sapateiro, posso dar uma sugestão?

– Claro.

– Bem, um sapateiro jamais colocaria uma costura na sandália nessa posição. Isso é impossível. A costura deveria ser assim… – e explicou em detalhes ao pintor como deveria ser a costura da sandália.

– Muito obrigado sapateiro! Vou levar em consideração em minhas próximas pinturas.

– Que bom que o senhor gostou, então vou lhe dar uma sugestão sobre os cabelos da modelo… – e foi interrompido por Apeles:

– Sapateiro, não vá além das sandálias!  – Em latim, Ne sutor ultra crepidam. Logo a advertência foi transformada pelos romanos em um provérbio. Em português, poderíamos traduzi-lo assim: “Não seja ultracrepidário”, ou numa linguagem bem popular: “não se meta onde não é chamado”!

Como está cada vez mais fácil postar opiniões nas redes sociais, os ultracrepidários estão proliferando!

Médicos opinam sobre educação de filhos; artistas de TV teorizam sobre filosofia; jogadores de futebol dão entrevistas sobre relacionamentos, psicologia ou política; mamães e papais tentam ensinar como educadores devem agir na escola; professores fazem diagnósticos de neurologistas ou de psiquiatras; políticos opinam e orientam sobre questões epidemiológicas; leigos dão receitas sobre remédios; influencers adolescentes levam crianças a se comportar inadequadamente; coachs sem formação em psicologia orientam pessoas em temas relacionados ao inconsciente etc. E o mais grave: líderes desprezam conhecimento científico bem fundamentado e levam a população a menosprezar orientações de órgãos adequados.

Chega!

Quando o “ego” se associa ao “achismo” e entra no lugar da opinião especializada, erros muito graves podem acontecer, até mesmo vidas podem ser perdidas, pois os leigos podem tomar tais orientações como se fossem científicas, verdadeiras e inteligentes.

Que os ultracrepidários tornem-se humildes e admitam dizer algo muito simples: “Isso não sei, alguém poderia nos orientar?”

Marcos Meier

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